Acho impressionante como pequenas coisas podem mudar nosso olhar. Vamos deixar de lado um instante o que Natalie Portman fez por Nina e pensar só na diferença de caracterização. Começando pelo óbvio, o cisne bom é Branco e o mau é Negro. No começo as diferenças são sutis: me lembro que quando ela começa a enlouquecer tem uma cena em que Nina passa por ela mesma no metrô. Ela-boa, está saindo do ensaio, voltando para casa, e no metrô passa por... ela-má, que anda na direção oposta. A boa está com suas roupas mais claras e leves, o cabelo bem puxado num coque, aquela coisa de bailarina impecável; a má está de sobretudo preto, maquiagem pesada nos olhos e cabelo solto. Só o contraste do cabelo já faz toda a diferença entre a pessoa mais rígida (e frígida) que é a bailarina perfeccionista com a mulher livre e sem responsabilidades que é a bailarina perfeita.
É bem legal também essa distinção que o diretor (Vincent Cassel, esplêndido) faz. Ele fala para Nina parar de se preocupar com a perfeição e viver, e só assim ela consegue realmente alcançar o que ela queria *spoiler* mas tudo tem um preço, e o dela é a loucura. Quem assistiu pensando que ia ver um drama de ballet se decepcionou. Quem assistiu pensando que ia ver um filme de terror se decepcionou. O filme é um maravilhoso thriller psicológico, que trata dos conflitos pessoais que aquela menina - que calhou de ser uma bailarina pela história, mas poderia ser qualquer outra coisa - passa e a constante busca pela perfeição, que só pode levar a uma vida infeliz e surtada.
Me lembro de ler um artigo sobre o filme em março, logo depois do Carnaval, que analisava justamente porque a personagem má fez tanto sucesso nos blocos. Apesar de a resposta me parecer óbvia, é uma coisa bastante interessante de se pensar. O Carnaval é um momento em que nos permitimos ser uma pessoa diferente do resto do ano, saimos da rotina, nos vestimos e comportamos de outra forma. Nada mais natural, então, que a personagem que vive - o Cisne Negro - e não tem responsabilidades ser quem todo mundo quer ser. Eu mesma me fantasiei de Cisne Negro e era só o que se via - assim como eu acho que ano que vem será da Amy, outra musa "transgressora" da atualidade. Enfim, acho bastante plausível o Cisne Negro fazer mais sucessos numa situação como o Carnaval do que o Cisne Branco, que é inocente, fofo, bonzinho.
Nina

Cisne Branco






